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  • Foto do escritorCineclube Bamako

Quilombolas de Mirandiba querem contar a própria história

Formação presencial do Kilombeduka proporcionou momentos de troca e vivência prática com as ferramentas do audiovisual


“Mirandiba tem muita história para contar”. O comentário é de Ianny Maria da Conceição, moradora de Mirandiba, no Sertão de Pernambuco, e uma das participantes da formação em audiovisual promovida pelo CineClube Bamako. O terceiro e último ciclo de aulas do projeto Kilombeduka, desenvolvido como apoio do Fundo Baobá, promoveu o primeiro encontro presencial no Centro Cultural Zumbi dos Palmares. A experiência imersiva proporcionou uma vivência coletiva que revelou o potencial criativo de educadores/as dispostas a utilizar o audiovisual como recurso para valorização da identidade local.


Mirandiba é um nome indígena que significa porco queixada. É lá nesse município constituído pelos distritos de Cachoeirinha e Tupanaci que se desenvolve  o terceiro e último ciclo de aulas do Kilombeduka em parceria com o Centro Cultural Zumbi dos Palmares. A organização da sociedade civil e sem fins lucrativos faz da cultura um instrumento de socialização pedagógica e celebra a chegada da formação na comunidade. Ao longo de 10 dias, os/as participantes puderam conhecer mais sobre técnicas de captação, edição de imagem e produção de roteiro a partir de uma construção coletiva de reflexões sobre a importância da produção de novas narrativas e percepções em favor de uma educação que desenvolva cidadãs/ãos com mais consciência de sua história e lugar no mundo.


Aline Maria da Silva (foto), coordenadora do Centro Cultural Zumbi dos Palmares, que já participou de uma ação coordenada pelo Coletivo Ficcionalizar, o projeto Ficcionalizar no Kilombo, comemorou a parceria com o projeto Kilombeduka, que proporciona uma formação numa comunidade que é atravessada por uma herança colonial que ainda afeta a autoestima dos mais jovens. “Esse projeto traz uma contribuição imensa porque através dele estamos vendo a  oportunidade de levar o audiovisual para dentro das escolas e criar estratégias para usar o audiovisual para falar sobre a beleza das pessoas quilombolas a partir da realização de pequenos vídeos”, comenta. 


Para ela, dominar as ferramentas de produção audiovisual é  possibilitar novos referenciais para a juventude. “Uma coisa muito importante da gente tratar é a autoestima. Esses vídeos podem trabalhar isso. Das pessoas se verem dentro de um contexto que lhes tragam esperança”, pontuou.


Gabriel Muniz, coordenador técnico e educador do Kilombeduka, já havia tido contato com a comunidade enquanto facilitador do Ficcionalizar no Kilombo, e celebra o retorno com mais uma ação educativa e de fortalecimento da identidade territorial. “Para mim, que já tive uma vivência neste município com a oportunidade de conhecer quatro das 26 comunidades quilombolas que o compõem, foi uma grande felicidade retornar e reconhecer pessoas com quem estabeleci partilhas de aprendizado, algumas delas ainda adolescentes, hoje adultas. O sentimento de retorno, com um propósito de continuidade do trabalho como educador popular em audiovisual, traz uma grande relevância para nós enquanto coletivo, ao colaborar com a afirmação da cultura e da luta política dos territórios quilombolas e indígenas da região”.


Participante do curso, os olhos de Ianny Maria da Conceição (foto) brilharam ao falar sobre a relevância da oficina formativa para a comunidade. “A gente não tá tendo acesso apenas à teoria, mas também à prática e eu espero que a gente possa evoluir e possivelmente trazer um cineclube para o município de Mirandiba”. Para ela, o projeto vai ajudar a perpetuar saberes e fazeres dos/das mais velhas/os da comunidade quilombola que não podem se perder com o tempo. “Mirandiba tem muita história para contar, para catalogar. Tem gente que tá encerrando o ciclo da vida e tem muita história para deixar para quem vem aí”.

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